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Redação do Enem: competências, estrutura e proposta

Mil pontos divididos em cinco competências. Monte a tese, destaque cada elemento de uma proposta de intervenção e descubra quais erros zeram e quais só tiram pontos.

Interpretação 12 min de leitura Um de 8 guias de Interpretação
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A redação do Enem vale até 1000 pontos e é a única parte da prova em que você produz um texto; muitos cursos dão a ela peso alto no cálculo do Sisu. Ela pede sempre o mesmo gênero: um texto dissertativo-argumentativo em prosa, de no máximo 30 linhas, sobre um problema social brasileiro, terminando com uma proposta para enfrentá-lo. Como o formato é fixo, dá para treinar a estrutura até ela virar hábito e gastar a energia da prova no que muda: o tema.

Dois corretores dão notas independentes, e quando não há discrepância, a nota final é a média delas. Se as notas divergirem muito (mais de 100 pontos no total ou mais de 80 em uma competência), um terceiro corretor avalia o texto. Se ainda tiver dúvida sobre o que separa um tipo textual de um gênero, veja gêneros e tipos textuais.

A conta da nota

5 competências × 200 pontos = 1000. Cada competência é avaliada em seis níveis: 0, 40, 80, 120, 160 ou 200. Por isso uma falha concentrada em uma só competência custa no máximo 200 pontos — mas um erro eliminatório, como fugir totalmente do tema, leva tudo.

As cinco competências

Toque em cada competência para ver o que ela avalia e onde os candidatos mais perdem pontos.

Competência 1: norma-padrão

Domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa

O que avalia
Gramática, ortografia, acentuação, pontuação, concordância, regência e escolha de registro
Onde se perde ponto
Desvios repetidos, gíria e marcas de oralidade, frases truncadas

A redação de nota máxima admite no máximo desvios pontuais, desde que não sejam reincidentes. Períodos longos demais costumam esconder erros de estrutura: duas ou três linhas por período bastam.

Competência 2: tema, tipo e repertório

Compreender a proposta e aplicar conceitos de várias áreas do conhecimento

O que avalia
Abordagem completa do tema, estrutura dissertativo-argumentativa e repertório sociocultural
Onde se perde ponto
Tangenciar o tema, cópia dos textos motivadores, repertório decorativo

Para os 200 pontos, o repertório precisa ser legitimado (vem de uma área do conhecimento: história, filosofia, dados, leis, obras), pertinente ao tema e produtivo — ou seja, ajudar a provar o argumento, não só aparecer.

Competência 3: projeto de texto

Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações em defesa de um ponto de vista

O que avalia
Se há um projeto de texto claro e se os argumentos são desenvolvidos
Onde se perde ponto
Argumentos apenas citados, contradições, informações soltas

A tese anuncia o caminho, cada desenvolvimento cumpre uma parte dele e a conclusão retoma o que foi provado. Um argumento desenvolvido responde a três perguntas: o quê, por quê e com que prova.

Competência 4: coesão

Conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a argumentação

O que avalia
Conectivos entre frases e parágrafos, retomadas por pronomes e sinônimos
Onde se perde ponto
Repetição de palavras, conectivo com sentido errado, parágrafos sem ligação

Não basta encher o texto de “ademais”: o conectivo precisa expressar a relação certa (causa, oposição, conclusão). Variar as retomadas, em vez de repetir o mesmo substantivo, também conta.

Competência 5: proposta de intervenção

Elaborar proposta para o problema abordado, respeitando os direitos humanos

O que avalia
Proposta concreta, ligada à discussão, com agente, ação, modo, finalidade e detalhamento
Onde se perde ponto
Proposta vaga, desligada dos argumentos ou que viola direitos humanos

Na correção, a nota sobe conforme os elementos válidos aparecem. Uma proposta que desrespeita os direitos humanos recebe a nota mínima nesta competência.

A estrutura em quatro parágrafos

Não é uma regra do edital, mas é o formato que melhor distribui 30 linhas:

  1. Introdução: contextualize o problema (de preferência com um repertório) e termine com a tese — sua posição mais os dois argumentos que vai desenvolver.
  2. Desenvolvimento 1: tópico frasal com o primeiro argumento, explicação, prova (dado, lei, fato histórico, autor) e fechamento que volta à tese.
  3. Desenvolvimento 2: mesma lógica com o segundo argumento, ligado ao anterior por um conectivo de adição ou de contraste.
  4. Conclusão: retome a tese em uma frase e apresente a proposta de intervenção completa.

A amarração entre os parágrafos é assunto da Competência 4; o guia de coesão e coerência traz os conectivos organizados por função.

Exemplo resolvido 1: montando a introdução

Tema do Enem 2023: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.

  1. Recorte do tema: não é “a mulher” em geral, nem “o trabalho” em geral, e sim o trabalho de cuidado (casa, filhos, idosos) que não é visto nem remunerado.
  2. Repertório: o conceito de dupla jornada, que descreve a mulher que trabalha fora e continua responsável pelas tarefas da casa.
  3. Dois argumentos: a divisão sexual do trabalho herdada culturalmente e a falta de políticas públicas, como creches em tempo integral.
  4. Tese montada: “Essa invisibilidade persiste tanto pela naturalização cultural de que cuidar é tarefa feminina quanto pela omissão do Estado em oferecer uma rede pública de cuidado.”

Repare que a tese já entrega o roteiro: o desenvolvimento 1 trata da cultura; o 2, do Estado; e a proposta precisa atacar pelo menos uma dessas causas.

A proposta de intervenção, elemento por elemento

Toque em um elemento para destacá-lo na proposta-exemplo e ver o que ele precisa ter.

Portanto, cabe ao Ministério da Educação incluir oficinas semanais de checagem de fatos no ensino médio , por meio de parcerias com agências de checagem e universidades públicas , a fim de formar leitores capazes de reconhecer notícias falsas . Essas oficinas devem ser conduzidas por professores formados em educação midiática, que ensinem a verificar a fonte e a data de cada informação .

Agente — Quem vai agir?

Identifique quem pode executar a ação: órgão do governo, escola, mídia, ONG, família. “A sociedade” pode ser agente, mas especificar o grupo e sua responsabilidade torna a proposta mais precisa.

Ação — O que será feito?

Um verbo de ação específico, que ataca uma causa discutida no texto.

Modo/meio — Como será feito?

O instrumento ou caminho da ação, normalmente introduzido por “por meio de”, “mediante”, “com”.

Finalidade — Para quê?

O efeito esperado, introduzido por “a fim de”, “para”, “com o objetivo de”. Deve resolver o problema da tese.

Detalhamento — Que informação a mais?

Uma informação extra sobre qualquer outro elemento: quem são os profissionais, com que frequência, por que aquele agente.

Exemplo resolvido 2: consertando uma proposta fraca

Proposta original: “Logo, é necessário que a sociedade se conscientize sobre o problema.”

  1. Diagnóstico: “a sociedade” é um agente amplo, sem responsabilidades especificadas; “se conscientizar” não é uma ação concreta; faltam modo, finalidade e detalhamento. O agente e a ação precisam ser avaliados no contexto; o problema central é a falta de uma medida executável, articulada aos argumentos.
  2. Escolha do agente: quem tem poder sobre a causa discutida? Se o argumento foi a falta de creches, o agente é o Ministério da Educação, em parceria com as prefeituras, que administram a educação infantil.
  3. Ação e modo: “ampliar a oferta de creches em tempo integral, por meio de repasses federais vinculados à construção e à manutenção dessas unidades”.
  4. Finalidade: “a fim de redistribuir o trabalho de cuidado e permitir que as mães conciliem renda e família”.
  5. Detalhamento: “priorizando bairros de baixa renda, onde a sobrecarga feminina é maior”.

A versão final tem os cinco elementos e, mais importante, responde a uma causa que o próprio texto discutiu. Proposta desligada dos argumentos perde pontos mesmo sendo completa.

Repertório sociocultural

Repertório é todo conhecimento que você traz de fora dos textos motivadores: um dado do IBGE, um artigo da Constituição, um fato histórico, um conceito de sociologia, um livro ou filme. Para render pontos ele precisa ser legitimado (de fonte reconhecível), pertinente (ligado ao tema) e produtivo (usado para provar o argumento). O teste é simples: se você apagar a citação, o raciocínio fica mais fraco? Se não fica, ela era só enfeite.

Treine: zera, perde pontos ou passa?

Para cada situação, escolha a consequência. A explicação mostra a regra e o mito por trás do erro comum.

Situação 1 de 6 · Acertos: 0

O texto tem 7 linhas escritas.

Certo: zera a redação. Até 7 linhas o texto é considerado insuficiente e recebe zero. Conte apenas linhas próprias: trechos copiados dos textos motivadores são desconsiderados.

Não: zera a redação. Muita gente acha que texto curto só perde pontos. O limite é objetivo: abaixo de 8 linhas, a redação nem é avaliada. Até 7 linhas o texto é considerado insuficiente e recebe zero. Conte apenas linhas próprias: trechos copiados dos textos motivadores são desconsiderados.

A proposta de intervenção incentiva a população a punir com as próprias mãos quem espalha notícias falsas.

Certo: perde pontos. Violar os direitos humanos derruba a Competência 5 para o mínimo, mas, pelas regras em vigor desde 2017, não anula a redação inteira. É um erro caríssimo mesmo assim.

Não: perde pontos. A ideia de que “desrespeitar direitos humanos zera” vem das regras antigas; hoje a punição recai sobre a proposta. Violar os direitos humanos derruba a Competência 5 para o mínimo, mas, pelas regras em vigor desde 2017, não anula a redação inteira. É um erro caríssimo mesmo assim.

O participante escreve a redação em forma de poema, com rimas.

Certo: zera a redação. O Enem exige o tipo dissertativo-argumentativo em prosa. Poema, narração ou carta não atendem ao tipo textual e recebem zero.

Não: zera a redação. Criatividade conta no repertório e no estilo, não no formato: o formato é regra eliminatória. O Enem exige o tipo dissertativo-argumentativo em prosa. Poema, narração ou carta não atendem ao tipo textual e recebem zero.

O tema é desinformação nas eleições, e o texto discute o uso da internet em geral.

Certo: perde pontos. Isso é tangenciar o tema: o texto fala do assunto amplo, mas não do recorte pedido. A nota cai bastante, a começar pela Competência 2, mas o texto não é anulado.

Não: perde pontos. Só a fuga TOTAL ao tema zera. Tangenciar é falar do assunto geral sem enfrentar o recorte da frase-tema. Isso é tangenciar o tema: o texto fala do assunto amplo, mas não do recorte pedido. A nota cai bastante, a começar pela Competência 2, mas o texto não é anulado.

O texto usa “acredito que” uma vez para apresentar a tese.

Certo: não é penalizado. A cartilha não proíbe a primeira pessoa. A impessoalidade é uma escolha de estilo recomendada, mas o que se avalia é a argumentação.

Não: não é penalizado. Professores costumam desaconselhar a 1ª pessoa por estilo, e isso virou o mito de que ela é punida. A cartilha não proíbe a primeira pessoa. A impessoalidade é uma escolha de estilo recomendada, mas o que se avalia é a argumentação.

O participante inclui um parágrafo com receita de bolo no meio do texto.

Certo: zera a redação. Parte deliberadamente desconectada do tema é tratada como forma proposital de anulação: a redação recebe zero.

Não: zera a redação. Não é um simples desvio de coerência: inserir de propósito um trecho alheio ao tema está na lista de motivos de nota zero. Parte deliberadamente desconectada do tema é tratada como forma proposital de anulação: a redação recebe zero.

Você acertou de 6 situações.

Os erros mais frequentes vêm de mitos de cursinho. Na dúvida, confira a Cartilha do Participante do ano da sua prova.

O que leva à nota zero

  • Fuga total ao tema.
  • Não atender ao tipo dissertativo-argumentativo (poema, narração, carta).
  • Texto com até 7 linhas próprias.
  • Cópia integral dos textos motivadores ou de questões da prova.
  • Impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, incluindo parte deliberadamente desconectada do tema.
  • Texto predominantemente em língua estrangeira, ilegível, folha em branco ou assinatura fora do local indicado.

Erros comuns

  • Tese que só constata. “A violência é um problema no Brasil” não defende nada. A tese diz por que o problema existe ou persiste.
  • Repertório de bolso usado para qualquer tema. A mesma citação colada em todo texto costuma ficar desligada do argumento e não chega ao nível máximo da Competência 2.
  • Desenvolvimento que só repete a tese. Cada parágrafo precisa explicar e provar, não apenas reafirmar.
  • Proposta genérica no fim. “Governo e sociedade devem se unir” não tem ação nem modo. Ancore a proposta numa causa discutida.
  • Ignorar o recorte. Sublinhe as palavras da frase-tema que delimitam o assunto (“no Brasil”, “do trabalho de cuidado”, “da mulher”) e use-as ao longo do texto.
Quanto tempo reservar para a redação no dia da prova?

A redação divide o primeiro dia com 90 questões de Linguagens e Ciências Humanas. Uma divisão comum é cerca de 1 hora e 15 minutos para a redação: 15 minutos para ler a proposta e planejar a tese e os argumentos, 40 minutos para o rascunho e 20 para passar a limpo. Planejar antes de escrever é o que evita a proposta desligada dos argumentos, o erro mais caro da Competência 5.

Teste o que você aprendeu

respondidas 0/5

Escolha uma resposta e veja na hora se acertou. É para aprender — sem pressão.

  1. 1. “O Ministério da Educação deve promover oficinas de leitura, por meio de parcerias com bibliotecas municipais, a fim de reduzir o analfabetismo funcional.” Qual dos cinco elementos falta nessa proposta?

    Por quê: Há agente (MEC), ação (promover oficinas), modo (parcerias) e finalidade (reduzir o analfabetismo). Falta uma informação a mais sobre algum deles, como quem conduz as oficinas ou com que frequência.

  2. 2. Qual destas situações leva a redação à nota zero?

    Por quê: Até 7 linhas o texto é insuficiente e zera. Ferir direitos humanos derruba a Competência 5; a 1ª pessoa não é punida; repertório de fora é justamente o que se espera.

  3. 3. Um texto sem erros gramaticais cita um filósofo no primeiro parágrafo, mas a citação não tem relação com o argumento. Qual competência é mais prejudicada?

    Por quê: A Competência 2 avalia o repertório, que precisa ser pertinente e produtivo. Citação decorativa não prova nada e não leva aos níveis mais altos.

  4. 4. Um corretor anota: “repete ‘além disso’ em todos os parágrafos e usa ‘mas’ onde a relação é de conclusão”. Em que competência o texto perde pontos?

    Por quê: Repetição de conectivos e conectivo com relação lógica errada são problemas de coesão, avaliados na Competência 4.

  5. 5. Tema: “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Qual frase funciona melhor como tese?

    Por quê: A tese toma posição e anuncia os argumentos (racismo estrutural e lacuna escolar). As outras frases apenas constatam fatos, sem ponto de vista a defender.

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Perguntas frequentes

Quantas linhas precisa ter a redação do Enem?
O máximo é 30 linhas. Um texto com até 7 linhas é considerado insuficiente e recebe nota zero; o ideal é ocupar de 25 a 30 linhas para desenvolver bem os argumentos.
Quais são os 5 elementos da proposta de intervenção?
Agente (quem faz), ação (o que faz), modo ou meio (como faz), finalidade ou efeito (para quê) e detalhamento (uma informação a mais sobre qualquer um dos outros elementos).
Desrespeitar os direitos humanos zera a redação?
Pelas regras em vigor desde 2017, não anula o texto inteiro: a proposta que desrespeita os direitos humanos leva a nota mínima na Competência 5. Confira sempre a Cartilha do Participante do ano da prova.
Pode usar primeira pessoa na redação do Enem?
A cartilha não proíbe. A impessoalidade é recomendada como estilo, mas um “acredito que” isolado não gera desconto; o que pesa é a qualidade da argumentação.