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Regência verbal: assistir a, preferir, implicar e mais

Regência é a ligação entre o verbo e seu complemento: com ou sem preposição, e qual. Veja os verbos que mudam de sentido quando ganham ou perdem a preposição.

Sintaxe 9 min de leitura Um de 7 guias de Sintaxe
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Alguns verbos se ligam ao complemento diretamente (“comprei o livro”); outros só funcionam com uma preposição específica (“gosto de livros”). Essa relação de dependência entre o verbo e seu complemento é a regência verbal. Na fala, muitas regências mudaram — quase todo mundo diz “assisti o filme” —, mas a escrita formal, a redação do ENEM e os vestibulares ainda cobram a forma da norma-padrão.

Se “transitivo direto” e “indireto” ainda não estão firmes, comece por objeto direto e indireto. Aqui o foco são os verbos que mudam de sentido conforme a regência e os que costumam ser usados com a preposição errada.

Regência depende do sentido

Não decore “assistir pede a”. Decore o par sentido + regência: assistir (ver) a algo; assistir (ajudar) alguém. Aspirar (desejar) a algo; aspirar (respirar) algo. Quando a preposição some, o sentido muda.

Os verbos que mais caem

Toque em cada verbo para ver os sentidos, a regência de cada um e como fica com pronome.

Assistir

O sentido muda a regência

Ver, presenciar
“Assisti ao jogo.” / “Assisti à aula.”
Ajudar, dar assistência
“O médico assistiu o paciente.”

No sentido de ver, pede a preposição “a” e não aceita o pronome “lhe”: “Assisti a ele”, nunca “assisti-lhe”. No sentido de ajudar, é transitivo direto: “assistiu-o”.

Há ainda o sentido de “caber, pertencer”, com “a”: “Assiste ao réu o direito de defesa”.

Aspirar

Respirar x desejar

Respirar, sugar
“Aspiramos o ar da serra.”
Desejar, almejar
“Ela aspira a uma bolsa de estudos.”

Sem preposição, é inspirar ou sugar. Com “a”, é desejar. No sentido de desejar, não aceita “lhe”: “aspira a ela”.

Visar

Mirar, dar visto ou ter como objetivo

Mirar / dar visto
“Visou o alvo.” / “O cônsul visou o passaporte.”
Ter como objetivo
“O projeto visa ao bem-estar dos alunos.”

No sentido de objetivo, a norma-padrão pede “a”. Diante de verbo no infinitivo, as gramáticas aceitam omitir a preposição: “O projeto visa melhorar a merenda”.

Obedecer e desobedecer

Sempre com “a”

Com substantivo
“Obedeça às placas.”
Com pronome
“Os filhos obedecem-lhe.”

São transitivos indiretos e, diferentemente de “assistir”, aceitam o pronome “lhe”. Uma curiosidade de prova: apesar de indiretos, admitem voz passiva — “As regras foram obedecidas”.

Preferir

Preferir algo a algo

Norma-padrão
“Prefiro teatro a cinema.”
Evite
“Prefiro mais teatro do que cinema.”

O próprio verbo já significa “querer mais”, por isso não leva “mais”, “antes” nem “do que”. O segundo termo vem com a preposição “a”, que pode formar crase: “Prefiro a praia à montanha”.

Ir e chegar

Destino com “a”

Norma-padrão
“Chegamos ao estádio.” / “Fui à farmácia.”
Registro informal
“Chegamos no estádio.”

Com “ir”, tanto “a” quanto “para” podem indicar destino: “fui ao mercado” e “fui para o mercado”. “Para” pode sugerir permanência, mas não exige uma ida definitiva. “Chegar em” é muito comum na fala, mas a escrita formal usa “chegar a”.

Implicar

Acarretar: sem preposição

Acarretar
“A decisão implica cortes.”
Antipatizar
“Ele implica com o irmão.”

No sentido de acarretar, a gramática normativa pede transitivo direto. “Implicar em” já aparece em alguns dicionários, mas é a forma que bancas e manuais de redação ainda corrigem.

Esquecer e lembrar

Com pronome, com “de”

Sem pronome
“Esqueci a senha.” / “Lembrei o endereço.”
Com pronome
“Esqueci-me da senha.” / “Lembrei-me do endereço.”

Sem pronome: transitivo direto. Pronominal: transitivo indireto, com “de”. A mistura “esqueci da senha” é comum na fala e já aparece em alguns dicionários de regência, mas a gramática normativa cobrada nas provas não a aceita.

Regência e crase andam juntas

Um caso frequente de crase é o encontro da preposição “a” com o artigo “a”. Ela também ocorre com demonstrativos: “referiu-se àquela proposta” e “preferiu isto àquilo”. E quem traz essa preposição, quase sempre, é a regência do verbo. Por isso “assisti à aula” tem acento e “vi a aula” não tem: “ver” é transitivo direto, não exige preposição. O truque da troca por masculino, explicado em uso da crase, funciona justamente porque revela a preposição escondida.

Exemplo resolvido, passo a passo

“Os alunos assistiram ___ peça de teatro.”

  1. Passo 1 · Identifique o verbo e o sentido

    Em “Os alunos assistiram ___ peça de teatro”, o verbo é “assistir” no sentido de ver.

  2. Passo 2 · Descubra a regência

    Assistir (ver) é transitivo indireto: exige a preposição “a”.

  3. Passo 3 · Olhe a palavra seguinte

    “Peça” é feminina e aceita artigo: “a peça”.

  4. Passo 4 · Some preposição e artigo

    Preposição “a” + artigo “a” = “à”. Confira trocando por um masculino: “assistiram ao espetáculo” — apareceu “ao”, então há crase.

  5. Passo 5 · Conclua

    “Os alunos assistiram à peça de teatro.” Sem a regência do verbo, não haveria preposição — e sem preposição não existe crase.

Exemplos resolvidos

Exemplo 1. Reescreva na norma-padrão: “Prefiro mil vezes ler do que ver o filme.”

  1. “Preferir” já significa “querer mais”: intensificadores como “mil vezes” e “mais” ficam redundantes.
  2. O segundo termo da preferência vem com a preposição “a”, não com “do que”.
  3. Resultado: “Prefiro ler a ver o filme.” Diante de verbo no infinitivo não há crase, porque verbo não recebe artigo.

Exemplo 2. Qual é o problema em “O aumento da tarifa implicará em demissões e a empresa visa o lucro”?

  1. “Implicar”, com sentido de acarretar, é transitivo direto: implicará demissões.
  2. “Visar”, com sentido de ter como objetivo, pede “a” na norma-padrão: visa ao lucro.
  3. Frase revisada: “O aumento da tarifa implicará demissões, e a empresa visa ao lucro.” (A vírgula separa orações coordenadas com sujeitos diferentes.)

Qual versão segue a norma-padrão?

Toque na frase correta. Se errar, o comentário explica por que a outra forma parece certa — e não é.

Par de

Acertos: de

Gabarito comentado dos pares
  • Assisti ao filme ontem. — No sentido de ver, “assistir” pede a preposição “a”: assistir ao filme, assistir à aula.
  • Prefiro estudar de manhã a estudar à noite. — “Preferir” já contém a ideia de “mais”: a estrutura é preferir algo a algo.
  • A mudança implica novos custos. — No sentido de acarretar, “implicar” é transitivo direto: implica novos custos.
  • Ela aspira a uma vaga em medicina. — Com sentido de desejar, “aspirar” pede “a”.
  • Esqueci o caderno em casa. — Sem pronome, “esquecer” é transitivo direto: esqueci o caderno. Com pronome, pede “de”: esqueci-me do caderno.
  • Todos devem obedecer às regras. — “Obedecer” pede “a”; somada ao artigo “as”, a preposição forma crase: às regras.
  • Cheguei ao colégio às sete. — Verbos de movimento, como chegar e ir, indicam o destino com “a”: chegar ao colégio, ir à escola.
  • O arqueiro visou o centro do alvo. — No sentido de mirar, “visar” é transitivo direto. Só no sentido de ter como objetivo ele pede “a”: visar ao lucro.

Erros comuns e como cai na prova

  • Trocar a preposição pelo uso da fala. “Assistir o”, “chegar em”, “implicar em” e “preferir do que” são os quatro desvios mais cobrados.
  • “Lhe” com verbo que não aceita. “Assisti-lhe” e “aspiro-lhe” estão errados quando o sentido é ver e desejar: use “a ele”, “a ela”.
  • Pronome relativo sem a preposição do verbo. “O filme que assisti” é a forma da fala; a norma pede “o filme a que assisti”. A preposição exigida pelo verbo vai para antes do relativo: “a vaga a que aspiro”, “o livro de que me esqueci”.
  • Crase como consequência. Questões de crase muitas vezes são questões de regência disfarçadas: “obedecer às normas”, “referir-se à proposta”, “preferir isto àquilo”.

A regência também explica a passiva: só verbo transitivo direto costuma ir para a voz passiva (“o filme foi visto”), assunto de voz ativa e passiva.

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  1. 1. Qual frase segue a norma-padrão?

    Por quê: Assistir, no sentido de ver, pede “a”. As outras deveriam ser: prefiro futebol a vôlei, chegou à escola, implica perdas.

  2. 2. Em “A enfermeira assistiu o paciente durante a madrugada”, a ausência de preposição está correta porque:

    Por quê: A regência acompanha o sentido: assistir alguém (ajudar) é transitivo direto; assistir a algo (ver) é transitivo indireto.

  3. 3. Complete: “Os candidatos aspiram ___ vagas da universidade.”

    Por quê: Aspirar (desejar) pede “a”; “vagas” aceita o artigo “as”. Preposição + artigo = às.

  4. 4. Qual frase usa “lembrar” de acordo com a norma-padrão?

    Por quê: Na forma pronominal, “lembrar-se” pede “de”. Sem o pronome, a forma correta seria “Lembrei o aniversário dela”.

  5. 5. Substitua o complemento por um pronome: “Assisti ao jogo.”

    Por quê: Assistir (ver) não aceita “lhe”: o complemento vira “a ele”. “Assisti-o” perderia a preposição exigida.

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Perguntas frequentes

Qual o certo: "assistir o filme" ou "assistir ao filme"?
Na norma-padrão, "assistir ao filme". No sentido de ver, o verbo pede a preposição "a". Sem preposição, "assistir" significa ajudar: "o médico assistiu o paciente".
Pode usar "prefiro mais isso do que aquilo"?
Na escrita formal, não. "Preferir" já tem a ideia de "mais" e liga os termos com a preposição "a": "prefiro isso àquilo", "prefiro ler a assistir".
"Implicar em" está errado?
No sentido de acarretar, a gramática normativa pede "implicar" sem preposição: "a medida implica gastos". Alguns dicionários já registram "implicar em", mas provas e manuais de redação seguem a forma direta.
Qual a diferença entre "esqueci o" e "esqueci-me do"?
Nenhuma de sentido. Sem pronome, "esquecer" liga-se direto ao complemento; com pronome, pede "de". O que a gramática normativa cobrada nas provas não aceita é misturar as duas: "esqueci do" (forma comum na fala, que alguns dicionários de regência já registram).