Aura das Palavras
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Conhecer o jogoMacaxeira, aipim ou mandioca? Classifique frases nos quatro tipos de variação, entenda o preconceito linguístico e resolva uma questão no estilo do Enem.
Nenhuma língua viva é falada de um jeito só. O português de um pescador do Pará, de uma advogada de Porto Alegre e de um adolescente de São Paulo muda no sotaque, no vocabulário e até na gramática — e todos falam português. Esse fenômeno se chama variação linguística, e a linguística o trata como característica natural das línguas, não como defeito.
Na escola e no Enem, o tema aparece com uma pergunta de fundo: a fala de alguém é adequada à situação? A troca de “certo ou errado” por “adequado ou inadequado” é a ideia central deste guia, e ela também explica por que a redação cobra a norma-padrão: a situação pede isso (veja a Competência 1 em redação do Enem).
Quatro perguntas, quatro tipos
Pergunte o que faz a fala mudar. Quando? Histórica. Onde? Regional. Quem? (que grupo) Social. Em que situação? Situacional. A mesma frase pode ter mais de um tipo; a questão de prova costuma pedir o que ela destaca.
| Tipo | Nome técnico | O que muda a fala | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Histórica | Diacrônica | Tempo | vossa mercê → vosmecê → você → cê; pharmacia → farmácia |
| Regional | Diatópica | Lugar | mandioca, aipim, macaxeira; tu no Sul e em partes do Nordeste e do Norte |
| Social | Diastrática | Grupo social (idade, escolaridade, profissão) | gírias de adolescentes; jargão de médicos ou programadores |
| Situacional | Diafásica (ou estilística) | Situação de comunicação | “Prezada professora” no e-mail; “oi, sumida” no recado à amiga |
A língua muda com o tempo. “Vossa mercê” era tratamento respeitoso no português antigo; pelo uso, desgastou-se em “vosmecê” e chegou a “você”. Palavras surgem (“printar”, “deletar”), outras caem em desuso (“supimpa”), e a ortografia é reformada: “pharmacia” virou “farmácia”.
Cada região tem sotaque, vocabulário e construções próprias: o “r” caipira do interior paulista, o “s” chiado do Rio, o “tu” com o verbo na 3ª pessoa (“tu vai”) em várias regiões, “guri” no Sul e “menino” em boa parte do país. As diferenças também existem entre países: no Brasil se diz “ônibus”; em Portugal, “autocarro”.
Grupos sociais — definidos por idade, escolaridade, profissão, classe — desenvolvem marcas próprias. As gírias identificam grupos (muitas vezes de jovens) e envelhecem rápido; os jargões são o vocabulário técnico de uma profissão, como “habeas corpus” no direito ou “deploy” na programação.
Uma mesma pessoa domina vários registros e alterna entre eles conforme o interlocutor e o contexto: mais formal numa entrevista de emprego, mais solto numa conversa com amigos. Usar o registro informal num requerimento é tão inadequado quanto falar como num tribunal durante o almoço em família.
Três conceitos que a prova gosta de separar:
O linguista Marcos Bagno, no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, mostrou que julgar uma variedade como “errada” costuma ser uma forma de julgar quem a fala — sua região, sua classe, sua cor. Ele desmonta mitos como “brasileiro não sabe português” e “o lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão”. Combater o preconceito não significa abandonar o ensino da norma-padrão: significa ensiná-la como uma referência para a escrita formal, necessária em certas situações, sem humilhar a variedade que o aluno traz de casa.
Leia a frase e escolha o tipo. A explicação mostra a pista decisiva e por que a resposta errada mais comum engana.
Frase 1 de 6 · Acertos: 0
Vossa mercê virou vosmecê, que virou você e, na fala de muita gente, cê.
Isso: histórica. É uma mudança que aconteceu ao longo de séculos: a forma de tratamento foi se desgastando com o uso. O eixo é o tempo.
Ainda não: é histórica. O “cê” lembra o sotaque mineiro, mas o que a frase descreve é a cadeia de transformações no tempo, não a diferença entre lugares. É uma mudança que aconteceu ao longo de séculos: a forma de tratamento foi se desgastando com o uso. O eixo é o tempo.
Em Recife se pede macaxeira; no Rio, aipim; em São Paulo, mandioca.
Isso: regional. A mesma raiz recebe nomes diferentes conforme a região. Quando a diferença depende do lugar, a variação é regional (diatópica).
Ainda não: é regional. O contraste destacado é entre lugares, por isso a resposta é regional. Isso não significa que todos os moradores de uma cidade usem sempre a mesma palavra. A mesma raiz recebe nomes diferentes conforme a região. Quando a diferença depende do lugar, a variação é regional (diatópica).
O médico anota para o colega: “paciente com IAM, encaminhar à hemodinâmica”.
Isso: social. É o jargão de um grupo profissional: siglas e termos compartilhados por quem é da área. Jargões e gírias são variação social (diastrática).
Ainda não: é social. A situação é formal, e por isso muita gente marca situacional. Mas o que chama atenção é o vocabulário exclusivo de um grupo: um leigo não entende nem em situação formal. É o jargão de um grupo profissional: siglas e termos compartilhados por quem é da área. Jargões e gírias são variação social (diastrática).
A mesma estudante escreve “Prezada professora” no e-mail e “oi, sumida” no recado à amiga.
Isso: situacional. A falante é a mesma; muda a situação e o interlocutor. Ajustar o grau de formalidade ao contexto é variação situacional (diafásica).
Ainda não: é situacional. Pode parecer social porque envolve idade e amizade, mas a pista é a mesma pessoa usando dois registros. Variação social compara grupos diferentes. A falante é a mesma; muda a situação e o interlocutor. Ajustar o grau de formalidade ao contexto é variação situacional (diafásica).
Os adolescentes dizem que o show foi “brabo” e que o colega “deu um perdido”.
Isso: social. Gíria é marca de grupo, aqui de faixa etária. Ela identifica quem pertence à turma e muda rápido. Variação social.
Ainda não: é social. Gíria pode ser confundida com informalidade (situacional), mas ela nasce e circula dentro de um grupo; um adulto falando informalmente não usa necessariamente essas gírias. Gíria é marca de grupo, aqui de faixa etária. Ela identifica quem pertence à turma e muda rápido. Variação social.
Um jornal de 1890 anuncia: “A pharmacia ficará fechada no domingo”.
Isso: histórica. A grafia com ph era a norma da época e foi simplificada pelas reformas ortográficas do século XX. Mudança no tempo: variação histórica.
Ainda não: é histórica. Não é erro nem marca de grupo: era a escrita oficial do período. Julgar o passado pela regra de hoje é anacronismo. A grafia com ph era a norma da época e foi simplificada pelas reformas ortográficas do século XX. Mudança no tempo: variação histórica.
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Quando duas respostas parecerem possíveis, volte às quatro perguntas: quando, onde, quem, em que situação.
O Enem cobra variação quase todo ano em Linguagens, geralmente com um texto real — letra de música, tirinha, poema, anúncio, post — que usa uma variedade fora da norma-padrão. A pergunta quer saber que efeito essa escolha produz: aproximar o público, caracterizar uma personagem, criar humor, afirmar uma identidade regional. É uma questão de interpretação de texto tanto quanto de gramática.
Acompanhe o raciocínio, um passo de cada vez.
Questão: o poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade, opõe o “Dê-me um cigarro” da gramática ao “Me dá um cigarro” que dizem “o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira”. O que o poema defende?
O sotaque é só uma parte: a variação na pronúncia, chamada de variação fonética. A variação também aparece no vocabulário (macaxeira, aipim, mandioca), na morfologia (“nós vamos” e “a gente vai”) e na sintaxe (“Me dá” e “Dá-me”). Por isso uma pessoa sem sotaque marcado ainda revela, pelas palavras e construções que escolhe, de onde vem e em que situação está.
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Escolha uma resposta e veja na hora se acertou. É para aprender — sem pressão.
1. Em parte do Brasil, o biscoito doce do pacote é chamado de “bolacha”; em outra parte, de “biscoito”. Que tipo de variação é essa?
Por quê: A diferença depende do lugar onde se vive, não da época, da situação ou do grupo social: é variação regional (diatópica).
2. Um apresentador de telejornal diz: “Me disseram que a ponte será reaberta”. Como avaliar essa construção?
Por quê: Começar a frase com pronome oblíquo é corrente entre falantes escolarizados no Brasil (norma culta), mas a gramática normativa (norma-padrão) recomenda a ênclise no início.
3. Numa tirinha, o advogado responde ao cliente com “data venia, o feito encontra-se concluso”, e o cliente fica perdido. De onde vem o humor?
Por quê: O jargão jurídico é variação social, típico de um grupo profissional. O humor nasce da inadequação: o advogado usa com o cliente uma linguagem que só os colegas entendem.
4. Qual afirmação expressa preconceito linguístico, segundo a análise de Marcos Bagno?
Por quê: Tratar uma variedade popular como “não saber português” é o preconceito descrito por Bagno. “Os menino” segue uma regra: o plural é marcado só no primeiro elemento.
5. Num conto, o narrador escreve na norma-padrão, mas as personagens dizem “nós vai” e “tá bão”. Qual é o efeito dessa escolha?
Por quê: A escolha é consciente: o narrador domina a norma-padrão e reproduz a fala das personagens para caracterizá-las social e regionalmente, tornando-as críveis.
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